Todo dia 20 de setembro, o Rio Grande do Sul e comunidades gaúchas espalhadas pelo Brasil comemoram o Dia do Gaúcho — feriado estadual no RS e uma das datas mais fortes do calendário cultural do estado. É também, na prática, um dos dias em que mais se acende fogo de chão no país inteiro, com churrascadas que reúnem família, CTGs (Centros de Tradições Gaúchas) e comunidades gaúchas em outros estados. Neste guia, o Manual do Churrasco explica a origem da data, a técnica do fogo de chão que é a raiz do churrasco brasileiro, e como reproduzir essa tradição em casa.

Foto: Jonas Joaquim Tavares / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)
Por que 20 de setembro é o Dia do Gaúcho
A data marca o aniversário da Revolução Farroupilha, deflagrada em 20 de setembro de 1835 sob a liderança de Bento Gonçalves — um levante que resultou na Guerra dos Farrapos, conflito que durou quase dez anos e é até hoje o pilar da identidade cultural gaúcha. Outro momento simbólico do movimento foi a Batalha de Seival, vencida pelas forças farroupilhas em 20 de setembro de 1836, exatamente um ano depois do início da revolução, reforçando a força da data no imaginário do Rio Grande do Sul.
A Semana Farroupilha
No RS, a comemoração não se limita a um único dia: a Semana Farroupilha toma as cidades gaúchas com desfiles, acampamentos, danças tradicionais, trajes típicos e rodas de chimarrão. CTGs de todo o estado organizam fogões coletivos, invernadas artísticas e apresentações de dança, enquanto escolas e prefeituras promovem atividades culturais ao longo da semana que antecede o feriado.
O fogo de chão: a raiz do churrasco brasileiro
Antes de existir churrasqueira, grelha ou espeto giratório, existia o fogo de chão — a técnica mais antiga de assar carne no Rio Grande do Sul, herdada da lida com o gado nas estâncias. A ideia é simples: uma fogueira de chão, carne inteira presa a uma estaca de madeira fincada ao lado do fogo, em ângulo, deixando o calor indireto da brasa fazer o trabalho devagar. É um método que exige pouco equipamento — uma faca afiada, uma estaca, fogo e sal grosso — e muita paciência, já que peças grandes como a costela podem levar de 4 a 6 horas assando.
Cortes tradicionais do churrasco gaúcho
O corte mais associado ao fogo de chão é a costela bovina, especialmente a costela de ripa ou o costelão inteiro, que ganha maciez e sabor com o cozimento lento na brasa. Também são tradicionais a alcatra, a maminha, o cordeiro (assado inteiro em ocasiões especiais) e a linguiça, que geralmente abre o churrasco enquanto as peças maiores ainda assam. No Rio Grande do Sul, o corte é servido com pão caseiro, saladas simples e, claro, uma boa roda de chimarrão antes e depois da refeição.
Como fazer sua própria costela no fogo de chão
Reproduzir a técnica em casa (ou em um sítio, chácara ou terreno com espaço seguro pra fogo) é mais simples do que parece, desde que você reserve tempo — a costela no fogo de chão não é um churrasco rápido.
- 1. Escolha a peça: costela bovina de ripa, com cerca de 4 a 6 kg, é o tamanho ideal para começar. Tempere só com sal grosso, sem pressa — o sal vai penetrando enquanto a carne assa.
- 2. Prepare a estaca: uma estaca de madeira resistente (ou uma cruz de ferro, nas versões mais modernas) é fincada no chão, inclinada, com a costela presa de frente para o fogo — nunca em cima da chama.
- 3. Regule a distância: o fogo deve ficar de 40 cm a 1 metro da carne, dependendo da intensidade da brasa. O calor precisa ser constante e indireto — se a carne está chiando muito ou queimando por fora, afaste a estaca.
- 4. Tenha paciência: a costela leva de 4 a 6 horas para ficar no ponto, soltando do osso com facilidade. Vire a peça de tempos em tempos para assar por igual dos dois lados.
- 5. Sirva em mesa farta: pão, mandioca cozida, salada de repolho e chimarrão são acompanhamentos tradicionais que completam a experiência.
Foto: Julio Cesar Martins / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)
Roteiro de churrascadas e eventos pelo Brasil no Dia do Gaúcho
A tradição gaúcha não fica só no Rio Grande do Sul. Comunidades e descendentes de gaúchos espalhados pelo país organizam suas próprias celebrações em 20 de setembro. No Espírito Santo, por exemplo, espaços de eventos já anunciaram grandes churrascadas para celebrar a data, reunindo comida típica, música regional e trajes gaúchos longe do RS. Em cidades gaúchas menores, como Torres, prefeituras e CTGs locais organizam festas gratuitas com fogo de chão aberto ao público, geralmente das 8h às 15h, no formato tradicional de churrascada coletiva onde cada família leva sua carne para assar no fogo comum.
Se você não é do Rio Grande do Sul mas quer celebrar a data, a receita é simples: reúna amigos, monte um fogo de chão (ou, na falta de espaço, uma churrasqueira convencional com calor indireto), sirva chimarrão e coloque uma playlist de música tradicionalista gaúcha pra ambientar a tarde.
Churrasco gaúcho x churrasco de churrasqueira: qual a diferença
O churrasco que a maioria dos brasileiros faz no fim de semana — em churrasqueira de alvenaria ou portátil, com carvão e grelha — é uma adaptação urbana e mais rápida da técnica original do fogo de chão. As principais diferenças estão no tempo de cocção (minutos contra horas), no corte (cortes nobres como picanha e alcatra fatiada, pensados pra grelha, versus peças inteiras como a costela, pensadas pro calor lento) e no tempero, já que o fogo de chão tradicionalmente usa só sal grosso, deixando o sabor da carne e da fumaça falarem por si.
Isso não quer dizer que um jeito seja melhor que o outro — são tradições diferentes que convivem bem. Muita gente inclusive combina as duas coisas num mesmo evento: começa com espetinhos e linguiça na grelha enquanto a costela cozinha devagar no fogo de chão ao lado, prontas para servir horas depois como prato principal.

Foto: Sandro Gonçalves / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)
Celebre o Dia do Gaúcho com respeito à tradição
Mais do que uma desculpa pra acender o fogo, o Dia do Gaúcho é uma homenagem a uma cultura que moldou boa parte do que o Brasil inteiro entende hoje como churrasco. Se você vai celebrar em 20 de setembro, vale reservar um tempo maior do que o churrasco de domingo comum, testar a técnica do fogo de chão com uma peça de costela, e brindar com um bom chimarrão — do jeito que a tradição gaúcha ensina há quase dois séculos.
Fontes: NSC Total (nsctotal.com.br), Prefeitura de Torres/RS (torres.rs.gov.br), Tomasi (tomasi.com.br) e 24h Notícias (24hnoticias.com.br) — conteúdos sobre a história da Revolução Farroupilha, a Semana Farroupilha e eventos do Dia do Gaúcho em 2026.
Trajes e símbolos que também fazem parte da data
Além da comida, o Dia do Gaúcho é marcado pelo uso da indumentária tradicional: bombacha, lenço no pescoço, botas e chapéu para os homens, e vestido de prenda para as mulheres, muitas vezes usados nos desfiles da Semana Farroupilha e nas rodeadas em CTGs. O chimarrão, servido em cuia e tomado com bomba compartilhada entre os presentes, é o ritual que acompanha praticamente toda reunião gaúcha, do início da tarde até o momento em que a costela sai do fogo.
Se você mora fora do Rio Grande do Sul, vale a pena procurar o CTG mais próximo — existem centros de tradições gaúchas espalhados por quase todos os estados brasileiros — e conferir se há programação aberta ao público no dia 20. É uma forma de viver a data com autenticidade, além de provar de perto a técnica do fogo de chão que inspira boa parte do churrasco que se faz hoje em todo o país.
