Carne bovina pode subir até 7% até o fim de agosto de 2026; entenda os motivos

Picanha bovina em corte, ilustrando a alta no preço da carne bovina em 2026
Foto: CNN Brasil

O preço da carne bovina deve continuar subindo até o fim de agosto de 2026, com alta acumulada podendo chegar a 7% em relação aos valores praticados no início do ano. A projeção é do pesquisador Júlio Barcellos, coordenador do Nespro (Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e reforça um movimento que já vem sendo sentido no açougue e no supermercado há alguns meses. Segundo o especialista, o incremento deve ocorrer de forma gradual, entre 2% e 3% ao mês, refletindo um fenômeno estrutural do setor conhecido como ciclo pecuário.

Diferente de um susto pontual de preço, essa alta tem raízes que remontam a 2024 e 2025, quando o abate de fêmeas cresceu de forma expressiva no país, sobretudo no Rio Grande do Sul. Fêmeas em idade reprodutiva foram enviadas ao frigorífico em vez de permanecerem no plantel para gerar novos bezerros — uma decisão dos produtores baseada, na época, em preços do boi gordo pouco atrativos e no custo alto de manter o rebanho parado. O resultado, hoje, é uma oferta menor de animais jovens disponíveis para reposição e engorda, justamente no momento em que a demanda, interna e externa, segue aquecida.

O que os números da CEPEA confirmam sobre a alta

Os dados divulgados pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA/ESALQ) ajudam a entender a dimensão do movimento. O indicador do boi gordo em São Paulo fechou junho de 2026 com média à vista de R$ 347,59, valor 4,6% superior aos R$ 332,14 registrados em janeiro do mesmo ano, já em termos reais. O pico do primeiro semestre aconteceu em abril, quando o indicador chegou a R$ 365,93, impulsionado pela transição entre safra e entressafra de pastagens, período em que a oferta de boi gordo pronto para abate costuma ficar mais apertada.

O que chama atenção nesse comportamento é que ele contraria a sazonalidade histórica do mercado: desde 1997, o padrão observado pela CEPEA é justamente o contrário, com recuo de preços entre janeiro e junho por causa da maior oferta de pasto nesse período do ano. A alta fora da curva reforça a leitura de que o problema não é conjuntural, mas estrutural — ligado diretamente à disponibilidade de animais, e não a uma variação sazonal comum que se resolveria sozinha em poucos meses.

Um dos fatores mais citados por analistas do setor, incluindo reportagens recentes da CNN Brasil sobre o tema, é justamente a participação das fêmeas nos abates. No acumulado de 2025, de cerca de 40 milhões de bovinos abatidos no Brasil, quase 17 milhões foram fêmeas — o equivalente a 43% do total. Quando esse percentual fica muito acima da média histórica, considerada saudável entre 35% e 40%, o mercado interpreta como sinal de que o rebanho está sendo reduzido, e não recomposto, o que compromete a oferta de bois prontos para abate nos anos seguintes.

Demanda aquecida dos dois lados do balcão

Se a oferta está mais restrita, a demanda segue firme — e isso vale tanto para o consumidor brasileiro quanto para o mercado internacional. A China continua entre os principais compradores da carne bovina brasileira, sustentando as exportações mesmo com as variações do câmbio e o custo logístico mais alto. Ao mesmo tempo, o consumo interno não recuou o suficiente para aliviar a pressão sobre os preços, já que a carne bovina continua sendo a proteína de preferência em boa parte das mesas brasileiras, especialmente nos churrascos de fim de semana em família.

O movimento não é exclusividade do Brasil. Nos Estados Unidos, o preço da carne bovina resfriada subiu 11% em doze meses, e o da carne moída avançou 14% no mesmo período, mesmo com aumento de consumo de 74% e 89%, respectivamente, segundo dados citados por especialistas do setor durante debates recentes sobre o mercado de proteína animal. Isso mostra que o aperto na oferta de bovinos é um fenômeno que atravessa fronteiras, tornando pouco provável uma reversão rápida de preços por meio de importação ou substituição de origem do produto.

Como se preparar para o churrasco nos próximos meses

Para quem organiza churrascos com frequência, o cenário pede um pouco mais de planejamento. Cortes tradicionais como picanha, contrafilé e maminha devem continuar entre os mais impactados, já que dependem diretamente da oferta de bois terminados e de maior qualidade. Uma alternativa prática é diversificar o cardápio com cortes menos disputados — como fraldinha, paleta ou músculo para receitas de cozimento lento —, que costumam sofrer menos com esse tipo de pressão de preço e rendem bem em churrascos maiores.

Comprar em quantidade maior aproveitando promoções de açougues e supermercados, além de recorrer ao congelamento correto da carne em porções já divididas, também ajuda a reduzir o impacto no orçamento familiar ao longo dos próximos meses. Como o próprio Barcellos já havia sinalizado desde outubro do ano anterior, com base no elevado percentual de fêmeas destinadas ao abate, a tendência de alta não é surpresa para quem acompanha o setor de perto — o que reforça a importância de se informar com antecedência antes de fechar o cardápio do próximo churrasco.

De acordo com o pesquisador, o tema deve ganhar ainda mais destaque na 21ª Jornada Nespro, evento que reúne especialistas em produção de bovinos de corte em Porto Alegre e que deve trazer novos números sobre a evolução do ciclo pecuário nos próximos meses. Até lá, a recomendação para o consumidor é acompanhar as promoções, negociar cortes alternativos com o açougueiro de confiança e evitar deixar a compra da carne para a última hora, especialmente em datas de maior movimento como feriados e fins de semana prolongados.

Rolar para cima